A ALEGRIA DE MACHADO DE ASSIS

A ALEGRIA DE MACHADO DE ASSIS

Machado de Assis e seus companheiros fundadores da Academia Brasileira de Letras imaginaram reunir na entidade o que existia de melhor na nossa intelectualidade. Sem dúvida, inspiraram-se na Academia Francesa, conhecida de muitos deles, como era o caso de Joaquim Nabuco. Como se sabe, a Casa de Machado, como ficou conhecida nossa ABL, completou um século de presença na vida nacional, de serviços prestados, sempre na vanguarda.

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A ALEGRIA DE MACHADO DE ASSIS

Aristoteles Drummond, jornalista, é vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro

        

      Machado de Assis e seus companheiros fundadores da Academia Brasileira de Letras imaginaram reunir na entidade o que existia de melhor na nossa intelectualidade. Sem dúvida, inspiraram-se na Academia Francesa, conhecida de muitos deles, como era o caso de Joaquim Nabuco. Como se sabe, a Casa de Machado, como ficou conhecida nossa ABL, completou um século de presença na vida nacional, de serviços prestados, sempre na vanguarda. Rachel de Queiroz abriu as portas para a presença feminina e, não por acaso, a presidência no ano do centenário estava ocupada justamente por uma mulher, Nélida Piñon.

     A instituição se tornou o coroamento da carreira de notáveis, cujos méritos não são medidos pela obra literária em si, nem pelo volume de venda de livros – embora, em 40 cadeiras, estes nunca deixaram de estar representados. Mas, coerente com a identidade da irmã mais velha, acolheu, ao longo de sua história, notáveis, homens que efetivamente se destacaram a serviço da cultura e do talento brasileiro. Assim, elegeu Santos Dumont, que, infelizmente, não tomou posse; Getulio Vargas, cuja obra eram os discursos nem sempre de sua lavra, mas que tanto fez pela cultura nacional, pelo patrimônio histórico e pela exaltação de nossos valores.

    Getúlio confiou o Ministério da Educação e Cultura a Gustavo Capanema, que reuniu um grupo de destaque na vida nacional em sua equipe, como Carlos Drummond de Andrade, Lucio Costa e Oscar Niemeyer – no projeto marcante da sede do Ministério, com traços de Le Corbusier e que hoje muito justamente se chama Palácio Gustavo Capanema. Vargas também criou o Museu da Inconfidência, repatriou os restos mortais dos inconfidentes mortos no degredo e fez de Ouro Preto Cidade Monumento Nacional. Ideias, aliás, que lhe foram levadas por meu avó, o historiador mineiro Augusto de Lima Junior. Assis Chateaubriand e Roberto Marinho foram notáveis levados à casa pelo seu maior presidente: Austregésilo de Athayde.

   Recentemente, acolheu a medicina, com Ivo Pitanguy, o nome que conquistou a admiração mundial; o cinema, com Nelson Pereira dos Santos; e certamente, em breve, abrirá suas portas para um homem da música popular brasileira e das artes plásticas. O clero e a diplomacia, celeiros de intelectuais na nossa história, nunca deixaram de estar ali representados. E a economia, aliada à diplomacia e à política, no seu melhor sentido, em momento de pluralismo e independência, elegeu Roberto Campos, certamente um dos dez mais notáveis do seu século.

    Essas observações vem a propósito de que outra reocupação do grupo fundador é que a entidade fosse uma casa de bom convívio, de troca de ideias entre homens e agora mulheres especiais. Não é à toa que acolheu em seu convívio como membros correspondentes grandes nomes de outros países, alguns perseguidos por regimes de força, como foi o caso do professor Marcelo Caetano e Adriano Moreira, ambos portugueses.

   A atual vontade dos fundadores há de ser confirmada nesse momento. A Casa de Machado se prepara para eleger o sucessor do presidente Cicero Sandroni, jornalista e homem de cultura, amigo do sogro Austregésilo de Athayde, fazendo retornar seu antecessor, Marcos Vinicius Vilaça. Este, além da sua obra pernambucana, fiel seguidor de Gilberto Freyre, um dos nossos maiores que, entretanto, não quis ocupar uma cadeira entre as 40, é um monumento do convívio, da cordialidade, da correção, da amizade.

   Vindo do interior pernambucano, Vilaça ganhou logo destaque no Recife, no Rio e em Brasília, sempre ligado na cultura, na literatura e no patriotismo. Esteve sempre do lado certo. Não tem do que se arrepender, mas homem cordial ao extremo, é discreto nas suas colocações, pois respeita e aceita todo e qualquer pensamento divergente do seu. Um democrata integral ou um cordial radical.

   José Mário Pereira, com sua sensibilidade de editor mais preparado do Brasil, já detentor do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, o mais importante da ABL, pelo livro que fez sobre José Olympio, acaba de nos presentear com este Marcos Vinicius Vilaça que produziu para a Editora Casa da Palavra, que é imperdível na exibição de uma personalidade admirável, fraterna, a quem as dores causadas pelo destino não tirou o gosto de viver, conviver, amar e ter fé. A mais, por ter recebido de Deus esta doce Maria do Carmo, que os torna, no meio acadêmico, uma unanimidade na estima, no carinho e na admiração. Vale conhecer a vida deste homem, que volta a presidir a nossa grande Academia, consagrando o espírito dos fundadores.


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