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O Brasil, desde que o Barão do Rio Branco resolveu as questões de fronteira, vivia há décadas em paz e harmonia com seus vizinhos. Mas agora anda com problemas que prometem entrar em fase crítica em curto prazo.
Evidentemente que temos uma parcela de culpa, já que nossa política externa deixou de lado a tradição de sabedoria de nossos diplomatas – verdadeira e honrosa elite do serviço público nacional, igualada apenas aos militares – para se entregar a orientações ideológicas. E o que é pior e inédito: a política externa é formulada e comandada de fora da Casa de Mauá. Nem parece que até há poucos anos tínhamos uma seleção de diplomatas do nível de Flexa de Lima, Azambuja, Frank Thompson Flores, Paulo Pires do Rio, Luís Felipe Lampréia e, subindo um pouco a idade, Pio Corrêa, Antônio Corrêa do Lago, Saraiva Guerreiro, Baena Soares, Mário Gibson. Isso para ficarmos nos mais conhecidos.
As demonstrações de fraqueza ou de incompreensível solidariedade às intervenções da Bolívia e do Equador em interesses de empresas brasileiras chegam a constranger. A entrada da Venezuela no Mercosul, se aprovada no Senado, apesar da heroica resistência do senador José Sarney, com a autoridade de presidente da Casa e ex-presidente da República, nos levará a imenso desconforto, além de prejuízos econômicos e políticos. Chávez será a palavra decisiva na entidade que fundamos, e da qual fatalmente teremos de sair. E mal. Tem mais. O agravamento da situação na Argentina nos criará dificuldades suficientes na esfera do Mercosul e a crise política nos Pampas parece estar próxima, dependendo do resultado das eleições deste ano no país vizinho.
O Paraguai insiste em pedidos fora da realidade e tem em seu comando um aventureiro, hoje desmoralizado pela impostura de sua vida anterior, quando já ofendia o compromisso com a Igreja que o fez bispo. Isto nos faz lembrar a orientação de Stalin, no final dos anos 40, aos seus partidários de todo o mundo, no sentido de que procurassem ingressar nas Forças Armadas e no clero. O ditador nunca se conformou com a derrota na Espanha, que acreditava ter barrado o domínio soviético na Europa e na América Latina, pela resistência de militares e religiosos. E os documentos agora liberados em Moscou confirmam esta tese. Chávez é militar, Fernando Lugo, ex-bispo católico.
Não estamos no caminho certo, como nossos amigos uruguaios e chilenos, que mantêm prudente distância dos tipos populares e pouco comprometidos com a democracia que estão surgindo na América Latina. O de El Salvador, logo, logo, dará o ar de sua graça.
A violência na região norte, seja no crime organizado sejam nos movimentos revolucionários como o MST, já desperta desconfianças de ingresso de armas pela zona colombiana dominada pelas FARC. A proteção a militantes deste movimento criminoso já se revelou mais de uma vez em escalões responsáveis do governo brasileiro. O Brasil, que já foi refúgio de bandidos internacionais, agora, com aval oficial, recebe e protege elementos envolvidos em crimes políticos de sangue, julgados em nações democráticas.
Assim, não podemos ter credibilidade para eleger nossos candidatos nos organismos internacionais. Os motivos de tão sucessivas derrotas não são revelados, nem poderiam ser, pela diplomacia internacional, mas são bem entendidas pelos que lidam neste mundo em que a habilidade, a coerência e a ética são avaliadas permanentemente.
Precisamos entender que nossa dimensão econômica passa por uma política externa coerente e correta. E ainda bem que no Itamaraty existem grandes quadros, momentaneamente recolhidos, por um grupo sem experiência e sem competência, apesar da contribuição de diplomatas brilhantes – o ministro e seu secretário-geral, que resolveram aderir a esta postura inacreditável, mas real.
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