Ficou muito comum se condenar “as elites” pelas mazelas de nossa vida pública, que fazem com que um país como o Brasil viva patinando em sua marcha para o desenvolvimento, não só econômico e cultural, mas ético e moral. Tudo por um equívoco no que toca ao que é uma verdadeira elite.
Nada de filosofar e buscar explicações nos “sociólogos” ou “cientistas políticos”. É mais simples uma consulta ao Aurélio (mesmo no minidicionário) que diz apenas que elite “é o que há de melhor numa sociedade ou num grupo social”.
Ora, sendo assim (e é assim que sempre foi entendido), o Congresso não é elite, mas contém no seu interior um grupo, infelizmente pequeno, desta parcela da sociedade. Os parlamentares não são todos iguais, pois, se dessa maneira julgássemos, estaríamos sendo injustos com gente como Bonifácio Andrada, Marco Maciel, Eliseu Resende, José Carlos Aleluia, Luiz Carlos Henze, Francisco Dornelles e outros poucos. E elite do eleitorado os seus eleitores.
A regra vale também para ministros, governadores e prefeitos. Aqui, no Estado do Rio, por exemplo, temos prefeitos que são elite, sendo exemplo maior o de Friburgo. Bento Heródoto de Melo, aos 80 anos, resolveu voltar à política para salvar sua cidade, que o elegeu deputado muitas vezes. Em Minas, José Braz, empresário vitorioso, entregou seus negócios aos filhos e netos e foi devolver a Muriaé o que julga ter recebido da cidade como oportunidade por ter chegado ao topo do empresariado nacional. E, hoje, um dos filhos já está na política, Bráulio, deputado estadual.
A culpa da queda na qualidade de nossos homens públicos é da elite. Mas daquela que se afastou da política, que deixou espaço para a demagogia, o poder econômico escuso, que foi omissa diante do surgimento de gente de péssima qualidade, com passado de suspeições e erros. A verdadeira elite é a empresarial autêntica, que hoje não está representada na vida pública senão por poucos, mas bons exemplos como a senadora Kátia Abreu, que preside a Confederação Nacional da Agricultura e o deputado Armando Monteiro, que dirige a Confederação Nacional da Indústria. E já tivemos Roberto Simonsen, Jessé Pinto Freire, Raul de Góis, Herbert Levy, Gilberto Faria, Euvaldo Lodi, Magalhães Pinto, Jose Ermírio de Morais. Tivemos a elite de nossas letras jurídicas com Aliomar Baleeiro, Oscar Dias Correa, Célio Borja, Paulo Brossard. E os intelectuais Menotti Del Picchia, Gilberto Freyre, Roberto Campos, Plínio Salgado, Assis Chateaubriand,Luiz Vianna Filho Gerardo Mello Mourão e muitos outros..
O erro das elites foi o afastamento da política, acomodada que ficou com a eficiência do período militar, em que a meritocracia levou a altas funções notáveis como Mário Henrique Simonsen, Ernani Galveas, Gonzaga Nascimento Silva, Helio Beltrão. Além de quadros das Forças Armadas do preparo e da vocação de César Cals, Mario Andreazza, Haroldo Correa de Matos, Faria Lima – o Brigadeiro e o Almirante –, como se não fôssemos um dia voltar ao regime democrático sem fiscalização dos militares, que impediram os gastos e os abusos, com a austeridade e responsabilidade que os caracterizam. Até na diplomacia, quando se convocou ministros de fora da carreira, foram nomes como Juraci Magalhães e Magalhães Pinto, que souberam honrar a classe formada sob inspiração do Barão do Rio Branco. Logo, é o momento de se pensar em termos de elite como definiu o mestre Aurélio e como interpretou Gilberto Freire.
O governo Lula teve e tem sua elite. Mas estes nomes são os de Roberto Rodrigues e Reinhold Stefanes, Antonio Palocci, Henrique Meirelles, José Antonio Muniz Lopes, Nelson Jobim, Cristovam Buarque. Os governadores também têm uma elite, em Aécio, Sérgio Cabral, Paulo Hartung, Blairo Maggi, não pelos cargos que ocupam, mas pela qualidade com que atuam. E o Judiciário, comprometido com a celeridade que dele se espera e do corporativismo de suas corregedorias, com odores de conivência,, também tem sua elite. Nem sempre nos que mandam, mas nos que honram a função.
A elite, empresarial, cultural e social deve sair de seu comodismo ou covardia. Acabamos de perder no Congresso um notável em José Aristodemo Pinotti.
Afinal, em 64, quando o Brasil estava na beira do caos, o país ganhou 45 anos de sobrevida com a presença das elites nas ruas, na mobilização da sociedade. O movimento foi civil, com cobertura dos militares que entenderam a gravidade do momento.
No Rio e em Minas Gerais, parece que a elite acordou. Integrou-se aos esforços dos governantes pelo que eles representam de valor; não apenas de poder. O que não ocorre em outros estados, em que o entendimento é falso, pois ambas as partes sabem das divergências profundas que separam elite, como o de melhor na sociedade, com mandatários que carregam na alma, na equipe e na ação ressentimentos que só Freud explicaria e os empresários que pensa nos seus ganhos apenas, sejam de forma for. Não é este o caminho, entretanto.. |