QUEM VENCEU FOI AÉCIO E NÃO SERRA
Há muitos anos que procuro entender a fascinação exercida sobre alguns colegas da reportagem política pelo tucanato paulista. O entusiasmo por um grupo de “companheiros de armas e bagagens”, que ficou matreiramente com boa parte dos votos conservadores de São Paulo. Muitos deles antigos membros da luta armada que fez correr sangue de empresários, sem respeitar o bom senso.
Na segunda-feira, o governador paulista foi apresentado como grande vitorioso, em detrimento do governador de Minas, seu companheiro de partido. Ora, em São Paulo, José Serra começou por trair seu partido, apoiando um prefeito que já vinha fazendo uma boa gestão e enfrentava candidata desgastada e que logo se deixou levar pelo desespero e apelou para a baixaria. Mais do que uma vitória de Kassab, o pleito paulista foi uma derrota de Marta e do PT. E, mais uma demonstração de oportunismo do governador de São Paulo.
FHC chegou a revelar o sonho de ver Aécio Neves de vice de Serra. Em nome do espírito federativo, que deveria nortear o pensamento de quem foi presidente da República por oito anos, seria natural que julgasse o momento. Se assim o fosse, concluiria que, depois de 16 anos, seria bom que outra unidade da federação ocupasse o Planalto. Até porquê, o PSDB em São Paulo teve um resultado pífio para partido que está no Bandeirantes há 14 anos.
Para se considerar os resultados de domingo passado como que influentes para 2010, o que se duvida, o golaço foi justamente o de Aécio. Ele venceu, abertamente, defendendo uma aliança séria em torno do bem comum, e não de política partidária, com os ministros do governo federal, inclusive dissidentes do PT regional, no palanque do outro candidato. Prova de que Aécio é a única novidade na política nacional. É jovem, pós-64, sem queixas nem exaltações. Olha para frente e não se prende a idiossincrasias. É moderno, simples e natural, não tendo nenhum registro de atitude desleal com adversários, quanto mais com aliados.
No Rio, venceu Sérgio Cabral, amigo pessoal e bom companheiro de vida pública do governador de Minas. Mas ninguém diz que o derrotado foi o PSDB, que é serrista. Enfim, é forçar muito a barra fazer um discurso de exaltação ao resultado paulista. Este teria ocorrido da mesma forma, se não tivesse tido a marca da traição, uma vez que Kassab de qualquer maneira iria ao segundo turno.
No mais, o presidente Lula teve toda razão ao se vangloriar de não ter sido atacado por nenhum dos candidatos, fosse da base aliada ou da oposição. Pairou acima das disputas, não podendo, portanto, lhe ser debitada a derrota do PT em antigos redutos, como Porto Alegre, a própria capital paulista que administrou por duas vezes e algumas cidades das regiões metropolitanas.
Também pouco se falou – confirmando o comentário aqui feito na semana passada – da vitória do PP em cidades médias, como Londrina e Pelotas. O que fica dessas eleições, portanto, é que a reforma política tem de entrar em pauta. O segundo turno deve cair de 50 para 40%, que a cláusula de barreira deve voltar e a fidelidade partidária não se tornar uma prisão para o político, que poderia trocar de legenda, pelo menos, uma vez a cada quatro anos, seis meses antes das eleições. Senão, os partidos viram cartórios ricos, poderosos ou até mesmo inescrupulosos.
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