Minha vida, minhas lutas

Minha vida, minhas lutas 22-P25

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Minha vida, minhas lutas - Pag. 22-P25

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Mesmo com muitos e bons amigos de esquerda, e tendo os atendido muito bem no tempo de Banco Nacional, não escapei da “máfia vermelha”. Fernando Barbosa Lima, ícone de nossa televisão e nosso querido amigo com Rosane, contava que me levar para TVE provocou protestos, que eu superei e, ao sair, lá deixei muitos amigos. O próprio Fernando foi censurado no livro que lançou pouco antes de morrer, pois na dedicatória escreveu que eu estava na obra. Não tendo encontrado nada depois, comentei com ele. Ficou perplexo. E lembrou-se do rapaz que o ajudou a fechar o livro, que, ao se deparar com minha citação, perguntou: “Você vai dar esta colher de chá para este reacionário?”

Entrei para o PEN Clube do Brasil e a carta era assinada pelo pai de Fernando, Barbosa Lima Sobrinho, que foi um implacável opositor do regime militar que eu sempre apoiei, socialista histórico, mas um democrata sincero. Nei Sroulevich, comunista de carteirinha, amigo dileto de Fidel Castro, casado com a melhor biógrafa do ditador, Claudia Furiati, foi amigo de toda vida e, curiosamente, responsável indireto pela minha entrada na política estudantil. É que, a pedido de meus amigos Franklin e Sérgio Rosenberg, primos de Nei, montei a representação do Princesa Isabel na Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas (AMES). Chegando ao congresso estudantil, verifiquei que Nei era um dos comandantes da esquerda e tive de explicar o engano. Ele entendeu e, como éramos cinco os votantes, ele disse: “Você vota como quiser, mas não cabala os outros quatro”. E assim foi feito. Quarenta anos depois, Nei levava Brizola para almoçar em minha casa. Outro chefe do “partidão” na época era o meu querido Monteiro de Sousa,” o “senador”, com quem, depois, vim a conviver na casa de Yara Vargas e junto a Moreira Franco.

A casa de Yara, a propósito, marcou uma época muito feliz em minha vida. Todas as frequentadoras eram mais velhas do que eu – menos a Nelma –, mas muito animadas. Maria de Garcia, mãe da primeira-bailarina Nora Esteves, por exemplo, foi uma longa amizade. Assim como Adelaide-Lia Sousa Renha, com quem estávamos sempre juntos. Antônio Carlos Sousa e Silva, Antônio Vieira de Melo, Gastão (irmão da Yara), João José Fontela (irmão de Maria Teresa Goulart), Maneco Lopes Barreto Vianna eram outros de todo dia, em conversas alegres e divertidas. Numa boa fase do Rio de Janeiro.

Na vida de jornalista, sofri duas agressões de fundo ideológico por parte de Milton Coelho da Graça. A primeira foi na TVE. Ele não quis apresentar o jornal do qual eu era um dos participantes, por ser um “defensor dos militares”. Com toda a sua arrogância, acabou não conseguindo me vetar e o programa foi apresentado pela linda Irene Cristina, com história muito melhor do que a dele na esquerda. Anos depois, ele assumiu a direção do Jornal do Commercio, onde eu assinava uma coluna (que durou 18 anos) e, de cara, no primeiro domingo, não a publicou. Ignorava o grau das minhas relações de amizade com os dirigentes dos “Diários” no Rio, Ibanor Tartarotti e Maurício Dinepi. Teve de engolir e publicar na terça-feira, com uma chamada na primeira página de que a coluna estava saindo, excepcionalmente, naquela data, em função “de uma falha técnica na edição de domingo”. Nada tenho contra ele, se não pena de uma alma rancorosa, totalitária e, até mesmo, boba.

Ao longo do governo Negrão, tive oportunidade de exercer função executiva de relevo ao ser diretor, aos 24 anos, e exercer a presidência da COHAB. E justamente no momento em que se executava o maior programa de casas populares de nossa história, recursos do BNH criado por Roberto Campos e que foi iniciado por Sandra Cavalcanti, com a remoção de parte das favelas da Zona Sul do Rio, em especial o contorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. Mas sem deixar o jornalismo, que foi uma atividade permanente em minha vida como vocação e como instrumento de defesa de meus ideais. Mais um pouco teríamos removido mais algumas favelas emblemáticas, mas as obras sofreram pequeno atraso e Chagas Freitas tomou posse para, criminosamente, distribuir a esmo as casas que havíamos construído, para atender a seus cabos eleitorais.

Os militares erraram em deixar a cargo do MDB a escolha do Rio, uma vez que Chagas era um sabujo. Melhor teriam feito se indicassem um nome como o de Álvaro Americano (MDB), grande talento de sua geração, que era o mais forte membro da equipe de Negrão, mas não tinha o controle do partido. Álvaro, homem de sociedade, diretor do Museu de Arte Moderna (MAM), culto e dono de um texto admirável Mais tarde foi meu padrinho de casamento.

Nessa altura, vieram se somar ao jornalismo duas atividades marcantes: no Banco Nacional e no Conselho Diretor da Associação Comercial do Rio. Muito aprendi ao entrar no banco para trabalhar diretamente com o carismático José Luiz de Magalhães Lins, o renovador do sistema bancário nacional e precursor do mecenato. Depois, com o próprio Magalhães Pinto, o governador de Minas, que deu partida à Revolução, Ministro das Relações Exteriores de Costa e Silva, deputado e presidente do Senado, com quem também muito aprendi. E ainda pude trabalhar com seus filhos Eduardo e Marcos, dois exemplos de simplicidade, correção e educação.

 


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