O Etanol de Caça

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O ETANO DE CAÇA

Aristoteles Drummond, jornalista, é vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro

          

        Com a sensibilidade do empresário e a visão do homem público, o deputado Paulo Maluf tem comentado que a questão dos caças a serem comprados pelo Brasil para nossa Força Aérea deveria incluir contrapartidas comerciais importantes. E nenhuma mais importante, no entender dele, do que a indústria sucroalcooleira, que só no estado de São Paulo emprega meio milhão de trabalhadores.

         No caso da proposta americana, o maior mercado de gasolina do mundo, uma cota anual de cinco bilhões de litros de álcool para mistura seria perfeitamente cabível. Ainda daria lugar a outros tantos que os EUA dividiriam no Caribe e América Central, reconquistando uma posição de prestígio junto a estes países, hoje afastados da liderança de Washington. E não afetaria o produto local, mais caro, de origem no milho. Basta fixar a mistura em 15% e lançar mais veículos flex. A adição superior a 12% elimina sem aditivos o chumbo da gasolina, com ganhos ambientais a baixo custo, portanto.

        O Brasil não pode deixar de lutar pela presença e reconhecimento internacional de nosso etanol para uso como combustível, direto ou misturado na gasolina. O risco é que  venha a ser desenvolvida tecnologia que iguale ou supere as vantagens de nosso álcool, imbatível até o momento em termos de qualidade, melhoria ambiental e preço.

Uma política sólida para o etanol permitiria investir na produção do Nordeste e do Centro Oeste, para a auto-suficiência da região e para dar um fluxo de oferta melhor distribuído ao longo do ano. A região pode voltar a ter uma presença significativa no setor, no qual tem tradição secular. E, para não corrermos o risco de acumular grandes estoques, temos de ampliar mercado, vendendo lá fora e garantindo divisas. Os contratos de longo prazo seriam feitos pelas empresas, mas conteriam uma garantia oficial de entrega do produto nas datas estipuladas.

        O parlamentar paulista calcula que o setor tem espaço para crescer e oferecer, em todo o país, mais meio milhão de empregos e, no caso de um amplo acordo com os EUA, outro meio milhão nos países caribenhos e centro-americanos, o que significaria uma verdadeira revolução social. Não estaria afastada a presença brasileira com tecnologia e equipamentos nestes mercados, que têm tradição açucareira, mas se encontram defasados na produtividade agrícola, como na industrial.

        Esse projeto chegou a ser ventilado no governo Figueiredo, a partir de um estudo do engenheiro Jaime Rotstein, pioneiro no pró-álcool, tendo, inclusive, publicado excelente livro sobre o novo mundo que o álcool combustível estava criando para o Brasil e o mundo. Naquela ocasião, o produto brasileiro a ser entregue serviria para garantir uma ampla renegociação da dívida externa, que motivava grandes preocupações nos anos 80.

       A livre empresa sabe o que fazer, como fazer e o governo precisaria apenas dar cobertura política e manter os financiamentos normais do setor, via BNDES e outras fontes. Como estamos em início de governo, seria uma tese que poderia vingar, deixando claro, assim, a vontade de apoiar o setor privado que deu certo.

          

 

 

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