O Brasil vive uma campanha eleitoral da futricaria, da ironia. Nela, os temas substanciais são abordados de maneira genérica e sem definir sob qual visão devem de ser resolvidos.
Não existe a menor duvida de que precisamos urgentemente de aeroportos e portos. Mas o que ninguém quer assumir é o “como fazer”. Como conciliar investimentos públicos e privados? Como cumprir metas para a Copa e para as Olimpíadas, sem burocracia, sem licenciamentos que por vezes passam pelo ridículo? E ensino técnico, pela rede pública, sempre de eficiência duvidosa ou pelo sistema S que tanto tem acertado?
Há dias, a imprensa publicou que a empresa americana JETBLUE construiu, com recursos próprios, um terminal em Nova York, no JFK. E esta empresa é ligada a nossa Azul, que poderia ampliar os pontos de embarque no Santos Dumont e Congonhas, além de sua base em Viracopos, onde a sala de embarque é dos anos 50. Definir o que pensa os candidatos é fundamental. Por exemplo: será que a doce Marina Silva ainda é contra o asfaltamento da Cuiabá-Santarém?
Muito pouco se avança na luta contra os entraves ao investimento estrangeiro – não o financeiro, já que o investidor não paga Imposto de Renda e o brasileiro paga. Por tal, o mercado avalia que um terço do que vem de fora é mesmo de brasileiros. Parece brincadeira!
O Secretário Nacional de Saneamento, Leodegardo Tiscoski, avalia que a universalização do saneamento básico no Brasil deverá ser alcançada dentro de 10 a 15 anos. Declaração animada, de executivo de primeira linha, com boa passagem no Congresso Nacional, mas decepcionante. Investimos hoje a metade do BNH do Governo Médici, de cujo partido, por afinidade, é o secretário e o seu ministro das Cidades.
Na verdade, saneamento é mais investimento em saúde do que em infraestrutura. E o governo Lula universalizou a luz e o ex-governador Aécio Cunha, o sinal de celular em Minas, em muito menos tempo. Um dos candidatos tem de assumir este compromisso e dizer como. É bom lembrar, entretanto, que as parcerias público-privadas levadas a cabo não deram certo. Saneamento não se reflete apenas no aspecto econômico, mas, sim, no social, na melhoria da qualidade de vida dos menos favorecidos.
Que falta nos faz Roberto Campos, que, a essa altura, estaria procurando saber o que pensam os candidatos, com sua objetividade e pragmatismo. Isso para não ficarmos nos sonhos dos candidatos e nos nossos de contribuintes de fôlego.
Dona Dilma, mal ou bem, vem admitindo a presença do capital nos grandes projetos e sabe que o sucesso dependerá das regras estabelecidas e do andar de algumas reformas. Já o candidato Serra insiste em certa dubiedade em reconhecer o papel social e econômico do empreendedor, prefere aumentar a arrecadação pela inclusão e pelo crescimento mas não fala em abrir uma pauta de estímulos fiscais e de financiamento para modernizar nossas empresas pequenas e médias, que sofrem com a crise. Com a vantagem de seu partido, em teoria, ser menos comprometido com o socialismo do núcleo duro da sua concorrente e do dirigente da maior entidade empresarial de São Paulo convertido ao socialismo. Paulo Scaff é homem sério, não teria ido para o Partido Socialista se não tivesse sido atraído pelas teses do Estado e sindicatos fortes.
Lembro-me bem de Roberto observar que era mais fácil conversar com um petista do que com um tucano de esquerda. E era um admirador de Antonio Palocci, a quem visitou na primeira gestão em Ribeirão Preto.
Resta a esperança de que, sem debate e sem pressão da reportagem, os candidatos sejam mais claros. O que precisamos é sabido. O diferencial é como fazer. Mas é uma pena que a livre empresa e o liberalismo estejam fora dessa sucessão em que um completa o outro . |