Quem faz, quem acompanha, quem vive em torno da vida pública em geral não pode deixar de ler Política: Ainda É Possível?, último livro de Antonio Carlos de Andrada. O autor se destaca em sua geração na polivalência do intelectual, do político e administrador (foi prefeito de Barbacena muito jovem e deputado estadual), que, talvez, seja o mais atual e completo retrato da realidade político-institucional da democracia brasileira. A obra aborda a fragilidade de nosso processo político-institucional, mostra que a reforma política é efetivamente importante. Assim como uma redistribuição das atribuições dos três poderes da República, que se atropelam na realidade em que vivemos.
Honrando a tradição de gerações de Andradas, no sentido do compromisso maior com os mais altos interesses do Brasil, o jovem, que com seus irmãos, todos militantes do interesse público, é orgulho do patriarca atual o deputado federal Bonifácio Andrada. O autor do estudo mostra que não podemos continuar dentro de quadro confuso , em que a democracia é agredida e o caos plantado.
Um dos pontos se refere a “judicialização” de relações políticas – o que, aliás, pode atingir o absurdo, se aprovado o parecer do relator Antonio Carlos Biscaia, no projeto que trata de ampliar a interferência na ação privativa do Legislativo por parte de múltiplos agentes da sociedade. O Brasil passaria a ser mais do que ingovernável; marcharia em poucos anos para a paralisia nas atividades públicas e privadas, com consequências dramáticas na qualidade de vida de sua população, que já não é das melhores.
Abusos na edição de Medidas Provisórias por parte do Executivo são mais do que conhecidos, condenados, mas sobrevivendo impunemente. O Ministério Público, que foi desvirtuado de sua boa origem, abusa, cresce e se torna quase que um poder independente e sem controle algum. Qualquer ONG vive quase que exclusivamente de “convênios” com o poder público e pode parar uma obra, um estudo técnico, interferir em atos de governo e até mesmo na gestão de empresas estatais.
Um exame do que tem ocorrido nas últimas décadas, leva, depois da leitura do livro de Antonio Carlos, hoje no Tribunal de Contas de Minas Gerais, concluir que se deve passar pelo fortalecimento da atividade parlamentar, reformulado o sistema eleitoral, a consolidação de nossa democracia e a segurança para se viver e trabalhar no Brasil. E mais: como está, a atividade política afasta a juventude bem orientada. Deixa o campo aberto para a presença de aventureiros eleitos por corporações, poder econômico ou mera política paroquial, com a consequente queda na qualidade da representação parlamentar, em todos os níveis, em todos os estados da federação.
Prova de que as reformas se impõem, para que novo ordenamento fortaleça a democracia e não uma política de maiorias eventuais, é que o Congresso abriga entre os que se destacam na atual Legislatura muitos jovens. Estão nestes casos o líder dos Democratas, Rodrigo Maia, do secretário-geral do PSDB nacional, Rodrigo de Castro, do presidente da Comissão de Esporte e Turismo, Afonso Hamm, do deputado Índio da Costa e outros que formam no Congresso e nas assembleias um grupo que chegou com novas ideias e nova maneira de encarar os problemas nacionais.
Nessa nova geração repousa a grande esperança de um Brasil mais culto, mais justo, sem cacoetes de uma militância corporativista e sectária, em condições de não perder a nova oportunidade histórica de finalmente ser uma grande nação. No mais, quando se nota que entre estes novos, os equilibrados e de bom senso, não falta o respeito e a busca da experiência dos mais velhos.
Pode-se responder ao autor do livro que ainda é possível a política, mas que as coisas podem se “africanizar” se deixarmos de promover as reformas, com grandeza, sem casuísmos. Precisamos barrar estes poderes paralelos inconcebíveis numa democracia moderna que busque o progresso.
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