Como todo brasileiro que tem um mínimo de sensibilidade acha, o poeta e compositor Vinicius de Morais é uma figura admirável. Na mocidade, tive o privilégio de conviver com ele, em conversas pela madrugada no Rio e em Petrópolis, onde ficávamos em grupo num bar modesto chamado “sachinha”, pois ficava aberto a noite inteira e nem portas tinha, numa alusão caricata da boate carioca da moda. Ficava em frente à casa da então mulher do poeta, Lúcia Proença.
Vinicius, diplomata de carreira, optou por se integrar totalmente a musica, a composição, a vida noturna e a atividade intensa, mas rápida, de paixões por mulheres. Sua primeira, Tati, conheci bem logo que me iniciei no jornalismo, em O Jornal, do Rio de Janeiro.
O grande diplomata Pio Corrêa, quando secretário-geral do Itamaraty, teve de, cumprindo seu dever, convocar o diplomata para esclarecer se ele era o mesmo que aparecia numa publicidade da boate Zum Zum, em Copacabana, como responsável por um show de música brasileira. Confirmado, foi-lhe explicado que a carreira diplomática era incompatível com uma atividade profissional permanente, mesmo que musical e fora do horário de trabalho.
Não havia nenhuma conotação política ou ideológica nas medidas administrativas do Ministério das Relações Exteriores. O que ocorreu, por exemplo, com o filólogo Antonio Houaiss, que era homem de esquerda e que, no governo Jânio Quadros, ainda secretário, foi quem votou contra Portugal, na ONU e “com muito prazer”, chocando os seus superiores que se negaram ao ato hostil à pátria-mãe e irmã. Este foi atingido por ato político, seu e do governo da Revolução.
Vinicius de Morais foi um grande divulgador do Brasil, através de sua música e poesia. Um homem do mundo. Merece todas as homenagens, mas esta promoção a embaixador não tem nada com o que fez. São muitos os casos dos que deixaram a carreira para abraçarem outras vocações. Se for pelos serviços prestados, temos de promover a embaixador Marcos Pratini de Morais, que deixou o Itamaraty para ser ministro de Costa e Silva, Médici, Collor e FHC. O senador Artur Virgílio trocou a diplomacia pela política; Álvaro Valle, o sempre saudoso parlamentar e homem de cultura, idem. E, para sermos atuais, o ministro das Cidades, Márcio Fortes, também deixou o Itamaraty. Vinicius declarou – e está tudo publicado – que não tinha vocação para diplomata. E seria difícil realmente imaginá-lo ministro ou embaixador na África ou na América Central.
Não é sem propósito que o TCU, órgão que zela pelos recursos da Nação, anda revendo casos em que, em nome de reparação política, exageros são cometidos. O nosso querido e admirado Vinicius não merece nem uma pensão especial, uma vez que seus herdeiros arrecadam, e muito, com sua grande obra. Indenização por serviços prestados ao país, corretos, inquestionáveis, foram, por exemplo, decretos do então presidente Médici. Homem discreto e de bom senso, sem alarde, concedeu pensão especial às viúvas de dois ex-ministros que não tinham do que viver – a do tenente João Alberto, cuja pensão era de tenente, embora tenha sido ministro e Interventor em São Paulo, entre outras funções de relevo, e Artur de Souza Costa, ministro da Fazenda por quase 15 anos de Getulio Vargas.
O TCU está no caminho correto. Tem suboficial anistiado, que jamais poderia chegar ao oficialato, com pensão de oficial do Exército, numa afronta a tantas famílias enlutadas, desde a Intentona em 35, pela ação sanguinária da esquerda radical. Daqui a pouco, depois de derrotado para o Senado, um dos assassinos do soldado Mario Cozel pode aparecer pedindo uma compensação pelo seu gesto heroico de matar um inocente que prestava seu serviço militar. Que Brasil!!! |